Hora Tânia (I);

(Dia 2 Janeiro, 14-17 horas, percurso até casa de Alexandra)

Depois de receber o telefonema da Alexandra, do qual eu não percebi nada… Esperei uma hora na paragem para apanhar a camioneta mais próxima para ir ter com ela… Depois de sucessivas chamadas recusadas comecei a ficar bastante nervosa… A voz dela ao telemóvel estava imperceptível, como quem estava a meio de um choro.
A porcaria do novo ano tinha mudado o horário das camionetas e eu tinha-me esquecido… Estava por um lado nervosa por causa da Xana e por outro, irritada por ter de sair de ao pé do Lucas. Ele parecia realmente simpático, apesar de tímido e tonto, mas era impossível não lhe achar graça. “Lulu…” Ria-me…
Finalmente a camioneta tinha chegado… Depois iria apanhar outra que ia dar mesmo à porta da casa dela…
Subi e qual não foi o meu espanto quando já me tinha sentado no assento de ver o Lucas a chegar à paragem e ficar a olhar para mim… E nem a porcaria do número lhe soube pedir… Será que ele ficou chateado ou triste comigo?
Em meia hora estava na paragem da segunda camioneta e mais meia hora à espera dela… E mais meia hora para chegar a casa da Xana. Eram 16:35 e estava em frente à vivenda dela… Aquela casa era demais… Era linda, adorava mesmo viver num sítio como aqueles, só a piscina já metia inveja, para não falar do jacuzzi interior.
Carreguei na campainha… Uma… Duas… Três… Quatro… Cinco vezes… Sem resposta… “Bem se calhar saiu de casa…” Mas a vontade de ir dar uma espreitadela naquela piscina… Sem deixar que alguém me visse, atirei a mala para o outro lado do portão. Sorte eu estar de ténis na altura… Trepei o muro junto ao portão e entrei para o jardim… Apesar de estarmos em pleno Inverno… Aquele dia estava lindo… O que pedia ainda mais para ir até à piscina… Mas assim que vi a janela da garagem aberta com vista para o jacuzzi, que podia fazer? Era um convite que eu não poderia certamente recusar… A Xana nunca me iria recusar ou fazer qualquer problema com aquela entrada, pelo menos nunca o tinha feito…
Estive a olhar para aquela garagem enorme, com bilhar, jacuzzi, carros, e diversões para jardins… Depois de mexer na água do jacuzzi, deu-me sede… “Vou beber qualquer coisa e depois vou-me embora”
Subi as escadas que davam para o hall e entrei na cozinha… Abri o frigorifico e tirei sumo para um copo… Fui bebendo enquanto caminhava pela cozinha, depois voltei para o hall e… “XANA?” Poisei o copo na mesa e corri as escadas até ao andar de cima onde a Alexandra estava deitada e com uma grande quantidade de sangue em redor da cabeça e com um frasco de comprimidos partido ao lado dela.
“Oh não! Que é que eu faço?!” O ano não estava a começar mesmo nada bem!

Hora Lucas(I);



(Dia 2 Janeiro, 14 horas, parque da escola, com o Fred)

-Vá lá! – Empurrava-me o Frederico para ir ter com a Tânia.
Eu estava cheio de medo só sabia dizer “é melhor não”. Sempre estive habituado a esconder-me por detrás dos óculos de crânio.
-Meu, vai lá ter com a miúda! Ela ‘tá sozinha e tudo!
“Não sei…” Engoli o resto da Coca-Cola e deixei cair a cabeça na mesa onde estávamos sentados.
-Ai é?! – Disse o Fred com ar provocador – Não vais lá, é?
Levantei a cabeça e franzi o olho para ele.
“Mau… Tu nem…” mas já era tarde demais… Com o andar de rufia próprio do Fred, foi ter com a Tânia e começou a falar com ela... Realmente é mesmo preciso ter muita lata para ir falar com uma pessoa que não conhece.
“Que é que ele está a fazer?!” Pensava eu com os meus botões. Só o via com sorrisinhos para ela… Sim, sentia-me bastante irritado e traído, pelo meu melhor amigo. Ele sabia que eu gostava dela e estava a provocar-me mesmo à minha frente…
Foi então que ele apontou para mim, e a irritação foi trocada pela vergonha e, a julgar pelo calor com que estava, devia estar com a cara pior que vermelha…
Depois ela levantou-se da cadeira. “OH MEU DEUS, ela levantou-se da cadeira!” Pensava eu quase que a berrar aos meus próprios ouvidos.
Tânia seguiu o indicador do Fred e ficou a olhar depois para mim sorrindo.
“Finge que não estás a olhar!” Mas o meu corpo não obedecia, nem sequer por milímetros: Ficou fixo focando o olhar dela. Com o meu cérebro a dar ordens e o meu corpo a não obedecer, fiquei especado a olhar para ela.
Fred afastou-se de Tânia e acenou-me despedindo-se. “Ai, ai, Fred… Quando te apanhar”. Fred disse qualquer coisa à Tânia e depois desapareceu.
Tânia agarrara entretanto nas coisas dela e começou a vir na direcção da mesa onde estava.
-Oi – Disse já quando estava em frente à mesa.
Nessa altura devo ter respondido qualquer coisa parecida com “Ó, ó, ól… olá” e devia estar a tremer por todos os lados.
Tânia olhara para redor e depois para o assento livre que estava na mesa…
-Acho que o teu amigo Fred, vai demorar um bocado, sabes?
“Er… Hã… Nã… não!” Bem que eu tentava parecer o mais calmo possível.
-Importas-te muito que eu me sente aqui? – Disse ela poisando as coisas.
“Er… Claro!” Tânia ficou a olhar para mim… “Quero dizer… Claro que não, não é?”
A minha alma estava parva e a minha cara não devia estar muito melhor…
-Chamo-me Tânia e tu?
“Lu… Lu…” Tânia riu-se…
-Lulu? – Disse ela num gracejo.
Eu ri-me e de seguida deu-se um click cá dentro… Tirei os óculos e poisei-os na mesa.
“Lucas, eu chamo-me Lucas” disse focando-a nos olhos.
Tânia ficou surpreendida pela minha mudança instantânea de atitude.
-Então e tens muita coisa para fazer este fim-de-semana?
Olhei para os livros, a resposta era evidente, claro que tinha montes de coisas… Mas apetecia-me mesmo estar com ela.
“Nem por isso… e tu?” De repente sou interrompido por um toque de telémovel.
Tânia olha para mim e pede-me desculpa e atende-o à minha frente.
-‘Tou? Alexandra… (…) Calma…(…) Não! Não faças nenhuma asneira!
Pelo o que eu percebi a chamada tinha sido desligada…
-Olha desculpa, nós falamos… – Tânia fez uma breve pausa olhando para mim – Depois…
“Mas… e…” Mas a Tânia tinha virado costas…
Mal sabia o destino que nos havíamos de voltar a encontrar, noutro lugar.

Hora Alexandra (I);

(Dia 2 Janeiro, +/- 16 horas, no meu quarto)

Estava desesperada! Já não aguentava mais com tanto sofrimento! Só queria desaparecer e culpá-lo por todas as coisas horríveis e nojentas que ele me fez. Deixei uma carta por cima da mesa-de-cabeceira. Só me lembrava do mal que me fez, das vezes que me tinha humilhado e do seu comportamento (que se alterava conforme a presença de alguém). À frente dos meus amigos ou os dele, demonstrava-se o meu melhor amigo, quase como se fossemos inseparáveis e depois, assim que estávamos sozinhos, tornava-se agressivo e mais uma vez nojento… Estava farta daquela vida e das manifestações de dupla personalidade dele!
Agarrei num frasco de calmantes e tomando dois a dois até esvaziar o frasco, ia-me despedindo do mundo. Com toda aquela droga no sangue, senti que uma lágrima escorregou pela minha face assim que a minha cabeça embateu no chão: Era o fim…